Óculos inteligentes criaram um problema que o celular nunca teve: ninguém percebe que está sendo filmado. Quem grava com o celular faz um gesto. Levanta o aparelho, aponta e segura. Você pode não gostar, mas sabe o que está acontecendo.
Com os óculos, esse gesto some. É um acessório que passa despercebido, e a gravação acontece de um jeito tão natural que ninguém teria motivo para desconfiar. A pessoa continua olhando para você do mesmo jeito enquanto filma.
Por isso concordo com o EDPB quando o statement 1/2026 pede sinais claros de gravação: luz, som, notificação e um design que deixe evidente que o dispositivo está captando imagem. Sem isso, quem é filmado não tem nem a chance de reagir, de sair do enquadramento ou de perguntar o que vai ser feito com aquilo.
Para mim, o trecho mais importante do texto diz que esses avisos precisam ser confiáveis e difíceis de ignorar. Um LED pequeno, que some sob a luz do dia ou que se cobre com um pedaço de fita, não cumpre esse papel. É um aviso que existe na ficha técnica, mas não chega a quem deveria ser avisado.
E aí a responsabilidade escorrega para o lado errado. Se o sinal é fraco, quem precisa ficar atento é a pessoa gravada, que não escolheu nada disso. A lógica da transparência é a inversa: quem coleta é que precisa se fazer notar.
O EDPB também lembra que fabricantes e fornecedores de aplicativos não podem transferir suas obrigações para o usuário. Isso pesa aqui, porque o sinal de gravação é uma decisão de projeto, tomada muito antes de o produto chegar à loja.