Edição 032 da newsletter Privacy Rocks, publicada originalmente no LinkedIn em 01/06/2026.

A resistência cultural é o maior obstáculo de qualquer programa de privacidade

Depois de anos trabalhando na implementação e na gestão de programas de privacidade em setores como saúde, telecomunicações e varejo, aprendi uma lição que nenhum framework técnico ensina: o desafio jurídico e tecnológico é, em muitos casos, mais simples de resolver do que o desafio cultural.

Frases como “sempre fizemos assim”, “nunca tivemos problemas antes” ou “essas regras só vão atrapalhar o trabalho” são muito mais comuns do que se imagina e não aparecem apenas nos níveis operacionais. Elas surgem em reuniões de liderança, em revisões de contratos e até nos bastidores de projetos de transformação digital. E representam um risco para o programa de privacidade, não tanto porque alguém age de má-fé, mas porque a privacidade, quando não compreendida, vira sinônimo de obstáculo.

A resistência cultural se alimenta principalmente da falta de contexto. Quando as pessoas não entendem por que a privacidade importa (por exemplo, os riscos de um incidente, as obrigações que a LGPD impõe e o impacto reputacional de uma notificação à ANPD) o programa de privacidade se transforma em mais um processo burocrático a ser tolerado, não em uma prática integrada à rotina.

Na prática, a estratégia para superar essa resistência passa por três caminhos que aprendi a combinar.

Primeiro, engajar a liderança, não com apresentações genéricas sobre compliance, mas mostrando os riscos reais (incidentes, sanções, perda de confiança do titular) e o valor estratégico de um programa maduro. Segundo, investir em comunicação e capacitação contínua, com linguagem acessível e exemplos do próprio negócio, não de cartilha. Terceiro, identificar e desenvolver embaixadores do programa dentro das áreas de negócio, com pessoas que entendem o tema e mantêm a cultura viva no cotidiano, entre um treinamento e o próximo.

Aproveitando esse gancho, escrevi um artigo “A Difícil Missão de Conscientizar a Organização em Privacidade e Proteção de Dados” que integrará um livro coletivo com outros especialistas da área. A publicação está prevista para julho, e assim que tiver mais detalhes trago aqui para vocês.

O LinkedIn está lendo seu navegador

O LinkedIn está lendo seu navegador e o Google Chrome permite isso. O LinkedIn está fazendo uma leitura silenciosa das extensões instaladas no Chrome dos seus usuários sem qualquer menção na política de privacidade.

O caso ficou conhecido como BrowserGate, uma investigação detalhada publicada na semana passada pela Fairlinked eV, uma associação europeia de usuários comerciais do LinkedIn. O BleepingComputer (link nos comentários) confirmou de forma independente o comportamento de varredura por meio de seus próprios testes.

O script verifica primeiro se você está no Chrome antes de executar qualquer varredura. Os navegadores como Firefox e Safari não são afetados e o Brave bloqueia o envio dos dados antes que saiam do navegador.

E qual a correção para isso? Simples, troque de navegador. Se privacidade importa para você, fuja do Chrome.

Nada a esconder, tudo a proteger

Já arrancou a etiqueta da caixa da Amazon e jogou direto no lixo?

Quando falamos em privacidade, a conversa quase sempre corre para apps, senhas e ferramentas online. Mas a privacidade física é tão importante quanto… pensa naquela etiqueta de entrega da encomenda do Mercado Livre, Amazon ou Shopee que você arranca da caixa e joga fora inteira, ali está seu nome completo, endereço, telefone e às vezes até o que você comprou. Um prato cheio para quem souber procurar.

Mesmo em 2026, ainda lidamos com uma quantidade surpreendente de papel, como recibos, faturas, documentos médicos, contratos, etiquetas de correspondências. Juntos, eles formam um retrato detalhado da sua vida, ou seja, um prato cheio para golpistas e para o roubo de identidade.

A solução é simples e velha de guerra: uma boa trituradora, que transforma o documento em confete impossível de remontar. As de corte em tiras? Esquece. Quem tem tempo e paciência remonta com fita adesiva.

Não tem uma trituradora? Existem outras opções:

  • Um carimbo de segurança (aquele que borra os dados) resolve para o dia a dia.

  • Sem nenhum dos dois? Respira fundo, tenha paciência e pique BASTANTE o papel(confete, não tirinha).

  • Ou queime! Funciona muito bem. (Mas, por favor, com responsabilidade e longe da cortina) Ah… lembre-se papel picado costuma ser reciclável = Privacidade + meio ambiente. ♻️

A regra é destruir tudo com dados pessoais, mesmo o que parece insignificante. Fique atento! CPF, endereço, dados bancários e outros. Em uma vida cada vez mais digital, é fácil esquecer os riscos do papel. Não esqueça do mundo físico.

Talvez não tenhamos nada a esconder, mas temos tudo a proteger.