Edição 033 da newsletter Privacy Rocks, publicada originalmente no LinkedIn em 12/10/2026.

A difícil missão de conscientizar a organização em privacidade e proteção de dados

Promover a conscientização em privacidade é, talvez, uma das tarefas mais complexas do Encarregado de Dados.

Não se trata apenas de cumprir o art. 50 da LGPD. Trata-se de mudar comportamentos, construir cultura, influenciar decisões e transformar a privacidade em um valor organizacional.

No dia a dia, vejo muitas organizações enfrentando uma batalha silenciosa para que seus colaboradores realmente se importem com o tema. E não é por má-fé ou negligência. É um conjunto de fatores:

  • A privacidade opera em um território pouco visível - enquanto outras iniciativas entregam resultados tangíveis e imediatos, o sucesso em privacidade costuma se manifestar justamente pela ausência de problemas.
  • Treinamentos genéricos, longos e técnicos demais - reforçam a percepção de que privacidade é burocracia, e não algo ligado ao trabalho de cada área.
  • Recursos limitados - equipes reduzidas e orçamentos apertados exigem criatividade e estratégia para manter o engajamento.

Foi sobre esses desafios, e principalmente sobre como superá-los, que escrevi o artigo “A difícil missão de conscientizar a organização em privacidade e proteção de dados”, publicado na obra coletiva “Encarregados: desafios, experiências e perspectivas”, coordenada por Ana Paula Canto de Lima e editada pela Editora Império.

No texto, compartilho estratégias práticas, como personalização por área de negócio, programas de Privacy Champions, conteúdo visual e interativo e campanhas temáticas, além de uma reflexão sobre o que as telas de pedidos do McDonald’s têm a ensinar sobre conformidade “de fachada”. 🍔

O Encarregado não é só um agente técnico ou jurídico. É um agente de mudança cultural. O objetivo é que a privacidade seja praticada porque faz sentido, e não porque é fiscalizada.

Tenho muito orgulho de dividir estas páginas com tantos profissionais que admiro.

📘 O livro está disponível no site da Editora Império.

A verdade sobre os navegadores de internet

Passamos o dia dentro de um navegador e quase nunca pensamos em quem está por trás dele. Uma análise do canal All Things Secured trouxe pontos que valem a reflexão.

Existem dezenas de navegadores, mas quase todos rodam sobre três motores: Chromium (Google), Gecko (Mozilla) e WebKit (Apple). No iPhone, praticamente todos são WebKit por baixo, só muda a embalagem. Isso não significa que todo navegador baseado em Chromium entrega seus dados ao Google, já que várias versões removem a telemetria e os serviços da empresa.

O modelo de negócio também é pouco intuitivo. O navegador gratuito raramente vende seus dados de forma direta. Ele te prende a um ecossistema, como fazem Chrome e Edge, ou vive de acordos de buscador padrão. Cerca de 85% da receita da Mozilla vem daí. Nenhum navegador existe sem incentivos, o ponto é saber se eles estão alinhados com os seus.

O que mais me preocupa são os navegadores com IA. Quando o assistente lê páginas e age por você, muito do que ficava no seu computador passa a ser processado fora dele, com pouca clareza sobre retenção e uso para treinamento de modelos.

Trocar de navegador é uma das melhorias de privacidade mais baratas que existem. Para quem quer comparar com critério, o privacytests.org é uma boa referência, porque testa os principais navegadores contra rastreamento, fingerprinting e outras técnicas de coleta, com resultados abertos e atualizados.

Segurança infantil online: o que as experiências latino-americanas podem ensinar?

O texto parte do ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), em vigor desde 17 de março, que desloca a proteção de crianças para o design de plataformas, jogos e redes sociais, com deveres sobre aferição de idade, supervisão parental, publicidade e recursos que estimulam uso compulsivo.

Depois compara com o Peru, cujo novo regulamento de proteção de dados (novembro de 2024) permite que maiores de 14 anos consintam diretamente, e com o Chile, cuja Lei nº 21.719 entra em vigor em 1º de dezembro de 2026 e exige consentimento dos representantes legais para menores de 16.

Na prática, quem tem produto digital acessado por menores precisa olhar para o próprio design, não só para a política de privacidade.

Repensando a privacidade da mente e por que proteger dados neurais não basta

Ensaio curto, publicado no Wolters Kluwer Cybersecurity Policy Report em 6 de outubro, que analisa as leis estaduais americanas que passaram a tratar dados neurais como sensíveis (Califórnia, Colorado, Connecticut, Delaware e, em 2026, Vermont).

Solove mostra que as definições divergem, já que algumas cobrem só o sistema nervoso central, e defende que proteger dados neurais é necessário, mas insuficiente: batimentos, movimentos oculares e comportamento já permitem inferir muito do que pensamos e sentimos.

Ele também critica o consentimento por opt-in (aceite expresso) e os relatórios de impacto pouco rigorosos como proteções fracas.

Se a IA faz a peça, o que cabe ao advogado?

André Gualtieri fez uma análise da ação civil pública que a OAB-SP ajuizou em 7 de outubro contra a Enter, plataforma de IA que analisa processos e redige peças para departamentos jurídicos de grandes empresas.

A ação ainda não foi julgada. Entre outros pontos, ela pede que cada peça tenha um advogado responsável e registro de revisão, além de salvaguardas de proteção de dados, como separação dos acervos de cada cliente, relatório de impacto, garantias para transferências internacionais e para decisões automatizadas e proibição de reutilizar os dados para aprimorar a plataforma sem base legal própria.